
Muito além das competições que movimentam os meses de junho e julho, o movimento junino do Distrito Federal sustenta uma extensa cadeia cultural e econômica formada por quadrilhas, músicos, costureiras, coreógrafos, produtores, técnicos, fotógrafos, profissionais de comunicação, cenógrafos e dezenas de outros trabalhadores. Há mais de quatro anos, o Giro Cultural atua diretamente nesse ecossistema, ampliando os espaços de circulação e criando oportunidades para artistas e grupos de diferentes regiões do Distrito Federal e Entorno.
Executado pela Formiga da Roça, com fomento do Ministério da Cultura, o projeto tem como uma de suas características centrais a diversidade de grupos contemplados. Embora tenha à frente uma das tradicionais quadrilhas do Distrito Federal, o Giro não limita sua programação aos integrantes ou parceiros da Formiga. Pelo contrário: ao longo de suas edições, abre espaço para quadrilhas de diferentes ligas, cidades, portes e trajetórias, além de trios e artistas ligados ao forró e à cultura popular.
Essa característica transformou o projeto em uma plataforma de circulação do movimento junino local. Em vez de concentrar recursos e apresentações em um único grupo, o Giro distribui oportunidades por uma rede formada por dezenas de organizações culturais.
“Desde o início, entendemos que o Giro Cultural precisava ser maior do que a Formiga da Roça. O movimento junino é muito amplo e só faz sentido desenvolver um projeto dessa dimensão se ele também criar oportunidades para outras quadrilhas, artistas e profissionais. O que buscamos é fazer o recurso circular dentro da própria cadeia da cultura popular”, afirma Patrese Ricardo, idealizador do projeto.
Cultura que também movimenta a economia
A circulação promovida pelo Giro tem efeito que vai além do palco. Cada contratação de uma quadrilha ou atração musical mobiliza uma estrutura que envolve transporte, alimentação, produção, figurinos, manutenção de equipamentos, músicos, brincantes e prestadores de serviços.
Em um segmento no qual grande parte das organizações culturais trabalha de forma comunitária e mantém suas atividades durante praticamente todo o ano, projetos de circulação representam também uma fonte importante de sustentabilidade.
É nesse contexto que a atuação da Formiga da Roça ganha uma dimensão econômica. Ao captar e executar projetos capazes de contratar outros agentes culturais, a entidade deixa de atuar somente como grupo artístico e passa a exercer o papel de articuladora dentro da economia da cultura junina do Distrito Federal.
“A Formiga tem uma responsabilidade muito grande com o movimento do qual faz parte. Quando conseguimos executar um projeto, queremos que ele gere trabalho, renda e visibilidade para mais gente. Não existe movimento junino forte se somente uma ou duas quadrilhas conseguem circular. Precisamos criar oportunidades para toda essa rede continuar produzindo cultura”, destaca Patrese, que também é presidente da Formiga da Roça.
Do centro às diferentes regiões do DF e Entorno
Outro elemento que caracteriza o Giro Cultural é a descentralização. As atividades aproximam manifestações tradicionais de diferentes comunidades e públicos, promovendo encontros em escolas, igrejas, espaços comunitários e outros territórios do Distrito Federal e de cidades da região do Entorno.
A dinâmica permite que apresentações que normalmente estariam concentradas nos grandes circuitos juninos alcancem novos espaços. Ao mesmo tempo, grupos de diferentes regiões passam a integrar uma programação comum, fortalecendo conexões dentro do setor.
Quadrilhas tradicionais e grupos mais recentes dividem espaço no projeto, assim como artistas do forró e outras expressões vinculadas às festas populares. Essa pluralidade ajuda a explicar a continuidade do Giro ao longo dos últimos anos.
Para Patrese, essa abertura é uma premissa do projeto.“Não perguntamos de qual circuito a quadrilha participa ou se ela disputa com a Formiga. Estamos falando de cultura popular. São grupos que trabalham o ano inteiro, formam jovens, movimentam suas comunidades e mantêm uma tradição viva. O Giro existe também para criar essas pontes”, afirma.
Um movimento que funciona durante todo o ano
Embora tenha no São João o seu período de maior visibilidade, o universo das quadrilhas não começa nem termina em junho. Ensaios, escolha de temas, produção de figurinos, montagem de cenários, contratação de profissionais, apresentações e ações formativas fazem parte de uma engrenagem que permanece ativa durante praticamente todo o calendário.
Ao manter oportunidades de circulação, o Giro Cultural contribui para reduzir essa sazonalidade e reforça a compreensão das quadrilhas como organizações culturais permanentes.
“Quando uma quadrilha recebe para fazer uma apresentação, aquele recurso não fica parado. Ele ajuda no transporte, no figurino, no pagamento de profissionais, na preparação do próximo espetáculo. Ele volta para dentro do movimento. Por isso enxergamos o Giro também como uma ferramenta de fortalecimento econômico das quadrilhas”, explica Patrese.
Depois de mais de quatro anos de atividades, a continuidade do projeto demonstra também a capacidade de organizações da própria cultura popular de assumirem o protagonismo na gestão de políticas de circulação.
Com recursos públicos transformados em contratação de artistas, apresentações e acesso gratuito à cultura, o Giro Cultural constrói uma rede na qual a Formiga da Roça ocupa menos o lugar de beneficiária exclusiva e mais o de vetor de circulação de recursos, oportunidades e trabalho dentro do movimento junino do Distrito Federal e Entorno.
A experiência reforça uma percepção cada vez mais presente entre os agentes do setor: preservar o São João passa não apenas por manter a tradição no palco, mas também por criar condições econômicas para que quem produz essa tradição consiga continuar trabalhando durante todo o ano.
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